A Depository Trust & Clearing Corporation (DTCC), uma das principais infraestruturas do mercado financeiro dos Estados Unidos, concluiu testes de produção com ativos tokenizados mantidos pela Depository Trust Company (DTC). As operações foram realizadas em 15 de julho de 2026 e envolveram mais de 30 empresas de diferentes segmentos do mercado tradicional e digital.
O movimento representa uma etapa prática na adoção da tokenização de ativos financeiros. Em vez de permanecer restrita a projetos experimentais, a tecnologia foi utilizada em fluxos associados à movimentação de garantias, ao empréstimo de valores mobiliários, à negociação de ações e a processos de margem para contrapartes centrais.
Como funcionaram os testes da DTCC
Segundo a DTCC, títulos mantidos sob custódia da DTC foram convertidos em representações digitais para uso em operações financeiras. Os testes também incluíram a entrega contra pagamento de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, mecanismo que relaciona a transferência do ativo à liquidação do pagamento.
As transações ocorreram em duas redes com características diferentes. A Besu foi utilizada como infraestrutura privada da DTCC, enquanto a Canton Network, uma rede pública voltada a aplicações financeiras, também participou do processamento. A combinação permitiu avaliar o uso de ativos tokenizados em ambientes distintos, mantendo a conexão com a estrutura de custódia tradicional.
A iniciativa não significa que os títulos tenham deixado de existir nos sistemas convencionais. A proposta testada consiste em criar representações digitais de ativos que continuam mantidos sob custódia regulada. Dessa forma, a tokenização pode funcionar como uma camada adicional para movimentar garantias, facilitar liquidações e ampliar a eficiência operacional sem substituir imediatamente as instituições responsáveis pela guarda dos ativos.
Serviço deve ser lançado em outubro
Os testes serviram como validação prática para o DTCC Tokenization Service, serviço voluntário que a entidade prevê disponibilizar em outubro de 2026. A oferta deverá ser direcionada a participantes elegíveis da DTC e permitirá criar representações tokenizadas de ativos mantidos sob custódia tradicional.
De acordo com a descrição divulgada pela DTCC, o serviço também deverá permitir a conversão entre os formatos convencional e digital. A previsão, no entanto, não equivale ao lançamento imediato de uma infraestrutura aberta a qualquer participante do mercado. O acesso dependerá dos critérios de elegibilidade e das condições estabelecidas para os usuários da DTC.
Na prática, a proposta busca aproximar a infraestrutura de registro, custódia e liquidação já utilizada pelo mercado financeiro dos recursos de redes blockchain. O interesse institucional está relacionado à possibilidade de movimentar ativos e garantias com mais automação, rastreabilidade e integração entre diferentes participantes.
Citadel Securities utilizou títulos do Tesouro tokenizados
A participação da Citadel Securities trouxe um exemplo específico de aplicação durante a iniciativa. Conforme relatado pela Fireblocks, a empresa utilizou sua infraestrutura para representar títulos do Tesouro dos Estados Unidos na Canton Network.
Os ativos tokenizados foram mantidos em uma carteira digital da Fireblocks e depois transferidos para carteiras de contrapartes registradas na DTC, entre elas BNP Paribas e Société Générale. Posteriormente, os títulos foram usados como garantia para financiar operações na CME, uma das principais plataformas de negociação de derivativos do mundo.
O caso ilustra uma das aplicações mais relevantes da tokenização para o mercado tradicional: o uso de ativos digitais como garantia em operações financeiras. Em vez de tratar o token apenas como uma representação para negociação, a estrutura testada relacionou o ativo a necessidades concretas de financiamento e gestão de colaterais.
O que muda para o mercado financeiro
A experiência conduzida pela DTCC indica que a tokenização começa a ser avaliada em atividades centrais do sistema financeiro, como liquidação, garantias e empréstimos de valores mobiliários. O avanço, porém, ainda depende de regras operacionais, controles de risco, integração tecnológica e definição sobre quais participantes poderão utilizar o serviço.
Também é importante diferenciar a representação digital de um ativo da criação de um novo investimento. Nos testes, os tokens estavam vinculados a títulos mantidos sob custódia da DTC, e não foram apresentados como uma alternativa independente aos ativos tradicionais. O valor da iniciativa está na infraestrutura e nos processos que podem ser aprimorados com a digitalização.
Com o lançamento previsto para outubro de 2026, a DTCC deverá transformar os resultados da fase de testes em uma oferta disponível a participantes elegíveis. A evolução será acompanhada por instituições financeiras, corretoras, gestoras e empresas de tecnologia interessadas em conectar mercados regulados a redes blockchain. Por enquanto, o anúncio mostra uma transição gradual: a tecnologia deixa o ambiente exclusivamente experimental e passa a ser analisada em operações vinculadas ao funcionamento cotidiano do mercado dos Estados Unidos.
