Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, parte de uma constatação que ainda surpreende quem observa o mercado de fora: cemitérios bem projetados não segregam a cidade, eles a qualificam. A relação entre urbanismo e espaços funerários é um dos temas mais instigantes da gestão cemiterial contemporânea, e compreendê-la é fundamental para qualquer empresa que pretenda planejar empreendimentos com longevidade, relevância social e retorno sustentável.
Neste artigo, você vai entender como o modelo de cemitério-parque redefine essa relação e o que ele exige em termos de gestão, projeto e posicionamento de mercado.
Quando o cemitério deixa de ser um lugar à parte
Durante grande parte do século XX, cemitérios foram projetados como territórios de exclusão, murados, afastados dos centros urbanos e pouco integrados à vida das cidades. Essa lógica começou a ser questionada à medida que o crescimento urbano avançou sobre áreas antes periféricas, transformando antigos cemitérios isolados em equipamentos encravados em bairros residenciais e comerciais.
Conforme esclarece Tiago Oliva Schietti, o cemitério-parque surge como resposta a esse novo contexto, propondo uma arquitetura que dissolve a fronteira entre o espaço funerário e o espaço urbano. Com gramados abertos, arborização densa, espelhos d’água, trilhas e ausência de muros altos, esses empreendimentos dialogam com o entorno e passam a ser percebidos pelas comunidades vizinhas não como lugares de morte, mas como áreas verdes de uso contemplativo.
O que define um cemitério-parque do ponto de vista técnico?
Nem todo cemitério com jardins é, de fato, um cemitério-parque. O modelo tem características técnicas específicas que determinam tanto sua identidade visual quanto sua operação. A principal delas é o sepultamento raso, com lápides ao nível do solo ou levemente abaixo dele, o que permite a mecanização da manutenção e confere ao espaço a aparência de um parque convencional quando visto de longe.
Tiago Oliva Schietti ressalta que a gestão de um cemitério-parque exige planejamento paisagístico rigoroso desde a concepção do projeto. A escolha de espécies vegetais adequadas ao clima local, o dimensionamento correto das áreas de circulação, o manejo do solo para evitar subsidências e a gestão da drenagem pluvial são aspectos técnicos que, se negligenciados na fase de projeto, geram custos operacionais elevados e comprometem a qualidade estética do espaço ao longo do tempo.

Urbanismo funerário e o papel do poder público
A integração dos cemitérios ao tecido urbano não depende apenas da iniciativa privada. O poder público tem papel determinante na definição de diretrizes de uso e ocupação do solo que orientem a localização, o porte e o padrão construtivo dos empreendimentos funerários. No Brasil, essa regulação é majoritariamente municipal, o que gera grande heterogeneidade entre cidades e dificulta a padronização de boas práticas.
Municípios que tratam os cemitérios como equipamentos urbanos relevantes, e não apenas como infraestrutura sanitária necessária, tendem a produzir melhores resultados para a população e para o setor privado. Planos diretores que reservam áreas adequadas para novos empreendimentos funerários, com acesso viário compatível e zoneamento que permita usos complementares como capelas, crematórios e espaços de memorialização, criam condições para o desenvolvimento de projetos de maior qualidade.
Na perspectiva de Tiago Oliva Schietti, o diálogo entre empresas do setor e gestores municipais é uma das frentes mais estratégicas para o avanço do urbanismo funerário no Brasil. Associações como a Acembra têm papel relevante nessa mediação, levando ao poder público dados, experiências e propostas que contribuem para políticas urbanas mais coerentes com a realidade do setor.
Memória, identidade e pertencimento urbano
Um aspecto frequentemente subestimado na discussão sobre cemitérios-parque é o seu potencial como espaços de memória coletiva e identidade urbana. Cemitérios históricos de cidades como Paris, Buenos Aires e Lisboa são patrimônios culturais reconhecidos, visitados por turistas e pesquisadores, e integrados às narrativas identitárias dessas cidades.
No Brasil, cemitérios como o da Consolação, em São Paulo, e o São João Batista, no Rio de Janeiro, ocupam papel similar, mas a maioria dos empreendimentos funerários ainda não explora esse potencial. Tiago Oliva Schietti indica que cemitérios-parque que investem em acervos históricos digitalizados, sinalização cultural, projetos de educação patrimonial e parcerias com universidades constroem uma dimensão de relevância pública que vai muito além da função funerária estrita, fortalecendo o vínculo com a comunidade e ampliando o reconhecimento social do empreendimento.
Gestão de longo prazo e sustentabilidade do modelo
Cemitérios-parque são empreendimentos de horizonte centenário. Decisões tomadas no projeto e nos primeiros anos de operação repercutem por décadas, o que torna a visão de longo prazo um requisito inegociável para sua gestão. A capacidade instalada, o ritmo de comercialização de jazigos, a política de preços, os critérios de manutenção e a estratégia de expansão precisam ser planejados com uma perspectiva temporal que poucos outros negócios exigem.
Conforme pondera Tiago Oliva Schietti, a sustentabilidade financeira de um cemitério-parque depende do equilíbrio entre a receita gerada pela comercialização de espaços e os custos permanentes de manutenção de uma área verde de grande porte. Modelos que dependem exclusivamente da venda de novos jazigos para cobrir custos operacionais são estruturalmente frágeis à medida que o cemitério se aproxima da capacidade máxima. A diversificação de receitas, por meio de serviços de cremação, memorialização digital, planos antecipados e locação de espaços para cerimônias, é uma das estratégias que garantem a viabilidade do empreendimento no longo prazo.
O cemitério-parque não é apenas uma escolha estética. É um modelo de gestão, uma aposta urbanística e uma declaração sobre o papel que os espaços de memória devem ocupar na cidade. Empresas que compreendem essa dimensão constroem empreendimentos mais duradouros, mais respeitados e mais capazes de servir às comunidades que as cercam ao longo de gerações.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
