Qual é a importância da inovação orientada por missões para o Brasil?

Em conferência livre realizada na CNI sobre o tema, diversas entidades discutiram contribuições para a construção da nova política tecnológica e de inovação brasileira

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a World-Transforming Technologies (WTT) promoveram, nesta terça-feira (16), um debate sobre estratégias que mobilizam empresas, academia e governo para a resolução de problemas do país por meio de metas claras: as missões. O evento Inovação Orientada por Missões: contribuições para a construção da nova política tecnológica e de inovação brasileira é uma das conferências livres que antecedem a 5ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia (CNCTI), organizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e que será realizada de 4 a 6 de junho.

O diretor de Tecnologia e Inovação da CNI, Jefferson Gomes, lembra que as contribuições feitas nas conferências serão colocadas em um documento que será entregue ao governo e que a CNCTI culmina na elaboração da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2030. “Nossa situação é típica de um país grande. O Brasil não é um país trivial. É um país que alimenta o mundo, mas tem muita gente passando fome. Tem água como poucos, mas tem problemas de saneamento básico. São características enormes e difíceis de se lidar. Por isso, precisamos trabalhar em missões que vão atacar uma série de vulnerabilidades que existem em nosso país”.

Andre Wongtschowski, diretor de Inovação da WTT, explica que a inovação é uma ferramenta fundamental para a superação de diversos desafios e para o desenvolvimento sustentável do país. “Estamos em um momento muito favorável dessa discussão porque, desde o ano passado, o debate em torno de políticas públicas voltadas para a inovação tem ganhado importância. A abordagem de missões coloca, portanto, o propósito da inovação no centro da discussão”.

Quais são as características centrais da abordagem de missões e por que utilizá-la?

Wongtschowski aponta três delas:

Direcionalidade: noção de que é preciso ter ciência, tecnologia e inovação voltadas para resolver os desafios do desenvolvimento do país.
Colaboração: reconhecimento de que, para lidar com desafios complexos, é preciso haver colaboração interministerial e políticas públicas, além de participação da sociedade, de empresários e da academia.
Clareza de metas e prazos: demanda que as missões sejam desenhadas com objetivos ambiciosos, mas com metas claras e que sejam monitoradas.
Ainda segundo Wongtschowski, a abordagem de missões pressupõe que:

A nova política tecnológica e de inovação brasileira coloque o desenvolvimento sustentável como uma das prioridades.
A nova política dialogue com as políticas que já existem, como a Nova Indústria Brasil (NIB), por exemplo.
A Conferência Nacional deve refletir sobre as propostas e recomendações apresentadas nas conferências livres.
É necessário garantir espaços permanentes e contínuos de participação da indústria, da sociedade civil e da academia no monitoramento e revisão da nova política científica.
Para Guila Calheiros, secretário de desenvolvimento tecnológico e inovação do MCTI, a conferência representa um grande movimento nacional para se refletir sobre os desafios e estratégias necessários para consolidar a ciência, tecnologia e inovação no país. “Todas as ações do MCTI estão alinhadas à estratégia nacional de desenvolvimento industrial e cada ator dentro do sistema precisa saber seu papel para ajudar a construir essa agenda”.

Agenda de missões e as prioridades da população

Francilene Garcia, diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), concorda com Wongtschowski que o país vive um momento favorável de investimentos em políticas públicas industriais e de ciência, tecnologia e inovação, mas lembra que é preciso haver diagnóstico e monitoramento das metas a serem estabelecidas.

“Por exemplo, apesar de o Brasil ser reconhecido por estar em terceiro lugar em produção científica no mundo, a gente precisa de uma lógica de impacto dentro desse volume de produção. Ou seja, é fundamental termos publicações e patentes, mas é necessário que essas tragam evidências de que são resolutivas em relação a problemáticas que enfrentamos no Brasil e conectadas com demandas globais”.

Para Francilene, um dos principais desafios para a ciência brasileira no presente e no futuro está na educação básica. “Não tem como reverter fragilidades no nosso país sem mexermos na educação básica. Essa é uma grande missão, não só do Ministério da Educação, mas da sociedade brasileira de um modo geral. Uma missão extremamente complexa, mas necessária”.

O papel da abordagem de missões, segundo Mariano Laplane, professora da Unicamp, é ajudar no processo de reconstrução do diálogo entre Estado, empresários e sociedade e uma oportunidade de enfrentar obstáculos. “Para a sociedade respaldar as políticas de inovação, é preciso que ela veja de maneira clara que esses atores trabalham para resolver problemas e criar bem-estar. A abordagem de missões tem a ver com a capacidade de articular as ações de inovação em torno da resolução de problemas vividos pela população, como os relacionados à saúde, educação e segurança, que estão no topo das prioridades da população em todo o território e em todos os níveis de renda”.

Segundo Laplane, feita essa conexão, a sociedade será capaz de entender a importância da ciência, tecnologia e inovação, e a necessidade de se investir nesse campo. Para o secretário nacional de ciência e tecnologia para o desenvolvimento social do MCTI, Inácio Arruda, o momento de efervescência de debates sobre políticas de inovação no país fomenta também o debate sobre como o Brasil vai responder ao avanço das novas tecnologias. “E não podemos fazer isso sem o Estado e sem a unidade do país. É possível fazer isso agora com esse momento de fortalecimento da democracia”, diz.

Missões e a Nova Política Industrial

Criado em 2004, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi reativado em abril do ano passado, com o propósito de liderar as bases para a construção de uma nova política indústria, organizada em missões temáticas voltadas para proporcionar benefícios para os brasileiros.

Para a secretária-executiva do CNDI, Verena Hitner, organizar o desenvolvimento do país a partir de missões é um processo diferente da experiência de países desenvolvidos. “A política de desenvolvimento industrial para o Brasil é diferente porque o impacto que ela gera na sociedade é absolutamente diferente. Significa trazer todos os instrumentos do Estado para dentro, com a certeza de que a indústria melhora a qualidade de vida das pessoas”.

Ainda de acordo com Verena, na construção da Nova Indústria Brasil, uma política orientada por seis missões, colocou-se a indústria como um meio para se chegar a um fim, que é o bem-estar das pessoas. “Trata-se de uma política construída em um espaço democrático, já que, nesse governo, a participação das pessoas e o processo importam tanto quanto o resultado. O momento impõe a reflexão sobre a conexão entre universidades e sistema produtivo e como é possível organizar o conhecimento científico que sai das universidades para o desenvolvimento nacional.

O diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da CNI, Rafael Lucchesi, também destacou a importância de políticas públicas industriais e dos recursos para financiá-las. “Você só tem indústria moderna se você tem ciência e inovação. A gente nunca terá os recursos das economias líderes, mas estamos colocando R$ 60 bilhões em política industrial. Isso é suficiente para empurrar a agenda para frente?”, questiona.

A Embrapii e a agenda de missões

Com uma estrutura moderna e inédita no ecossistema de inovação brasileiro, que já mobilizou R$ 3 bilhões em projetos de inovação, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), incentiva a pesquisa aplicada e a tecnologia no país por meio do apoio a milhares de empresas em 10 anos de existência.

“Estamos identificando um canal para receber esses desafios que vêm da NIB para endereçar a esse exército de pesquisadores que foram treinados e capacitados para responder a esses desafios a partir do financiamento de vários ministérios”, explica Marcelo Prim, diretor de operações da Embrapii.

A Coordenadora na Gerência de Análise Econômica e de Dados da instituição, Marília Basseti, explica que a instituição foi criada a partir da necessidade de aproximar a academia do sistema produtivo para resolver gargalos que existiam no ecossistema de inovação. “O modelo tradicional da Embrapii é criado a partir de demandas da indústria. A embrapii não faz política pública, mas isso não quer dizer que a gente não tenha espaço criativo para modelar iniciativas que atuem na fronteira do conhecimento, já que partimos da ideia de que no Brasil existe um ecossistema inovativo muito robusto e que deve ser valorizado”.

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